Mais que nunca é preciso combater a islamofobia

O ataque contra Charlie Hebdo suscitou uma emoção legítima em todo o país. Nada justifica tal crime, nada justifica que pessoas ataquem uma redação, nada justifica que jornalistas sejam assassinados, policiais, simples cidadãos, alguns porque são judeus. Nós não sabemos se haverá um “antes” e um “depois” desse dia 7 de janeiro, mas é vital que um debate seja aberto sobre o futuro comum que desejamos.

Esse debate começou, mas tem seguido uma via perigosa que é a de acusar os críticos de Charlie Hebdo de serem, mais ou menos diretamente, responsáveis pelas mortes do dia 7 de janeiro. Escutemos Jeannette Bougrab, antiga Secretária de Estado durante a presidência de Nicolas Sarkozy: “De tanto apontar os dedos para eles, dizer que na Charlie Hebdo eles são islamofóbicos, que eles detestam o Islã (…). Estou pensando nos Y’a bon awards e nos Indígenas da República, claro que eles são culpados. Eu o digo e assumo meus comentários.”

Esse tipo de argumento é regularmente desenvolvido pela ensaísta Caroline Fourest. Ele foi retomado em uma tribuna do Monde (9 de janeiro) por Christophe Ramaux, que insiste sobre a responsabilidade dos organizadores e dos participantes – do Partido dos Indígenas da República ao Politis, passando por Edwy Plenel e Attac – de um colóquio, no dia 13 de dezembro de 2014, contra a Islamofobia (ao qual Ramaux visivelmente não compareceu).

Essas acusações visam a nos encasular a todos em escolhas binárias (a favor de Charlie Hebdo ou dos terroristas), a criminalizar aqueles que se mobilizam contra a islamofobia, aqueles que criticaram o semanário satírico, chamando-o de cúmplice dos assassinos. Essas acusações equivalem a negar o direito à crítica, o que é um tanto paradoxal vindo daqueles que se levantam como defensores da liberdade de expressão sem limites nem fronteiras. Assim, nós seriamos responsáveis pelas mortes desse mês de janeiro? O que dizer então dos intelectuais e dos jornais que apoiaram a intervenção americana de 2003 no Iraque que provocou dezenas de milhares de mortes?

Para além dessas polêmicas, surgem dois tipos de questões que merecem uma discussão aprofundada. Primeiro, existe uma relação entre a política que os países ocidentais conduzem e a ascensão de grupos extremistas e fanáticos? Em seguida, qual é a realidade da islamofobia na França e porque é preciso combatê-la?

Nenhum programa político unido

Lembremos um fato simples. Em 2003 quando os Estados Unidos invadiam o Iraque, Al-Qaeda não existia nesse país e estava recuando em todos os lugares; não dispunha de nenhuma base territorial. Vinte anos depois do início da “guerra contra o terrorismo”, a organização do Estado Islâmico (EI) controla doravante um amplo território no Iraque e na Síria.

A coalizão criada contra o EI no verão de 2014 não apresenta nenhum programa político unido, mas multiplica os bombardeios. Vários estudos comprovam que a utilização em grande escala de drones no Paquistão, no Iêmen e na Somália dava origem a novas gerações de combatentes extremistas. Enfim, existe a Palestina; não é necessário ser um extremista para pensar, como o Secretário de Estado norteamericano John Kerry ou o General David Petraeus, que a continuação do drama palestino nutre a ideologia dos grupos mais extremistas. E, no entanto, a ocupação israelense é permitida e Benyamin Nétanyahou desfila em Paris a favor de … Charlie Hebdo.

O outro debate trata da existência e da amplitude da islamofobia na França (e de forma mais ampla na Europa). Antes mesmo do ataque contra Charlie Hebdo, assistíamos à multiplicação de atos islamofóbicos; estes aumentaram desde então. Era o sentido da reunião internacional do dia 13 de dezembro de 2014 em Paris (e simultaneamente em Londres, Amsterdam e Bruxelas).

A reunião acontecia em um momento em que o conceito de islamofobia tinha acabado de se impor, como destacava o último relatório da Comissão Nacional Consultiva dos Direitos Humanos (CNCDH). O que significa? A acusação de islamofobia não se dirige àqueles que criticam a religião, mas àqueles que atribuem aos muçulmanos uma “identidade” decorrente do Corão, que fazem deles um grupo homogêneo e portador de um projeto coerente que tem como alvo nossas instituições, nossos valores.

Herança da laicidade

Ao contrário desta análise, nós nos inscrevemos na herança da laicidade tal como definida pelos deputados que votaram a lei de 1905, uma separação entre as Igrejas e o Estado, uma neutralidade do Estado (e não dos cidadãos), o direito de cada um de afirmar sua religião no espaço privado ou público. O que nós discutimos em dezembro foi o direito das mães de acompanhar seus filhos durante as saídas escolares; as respostas feministas à islamofobia; o direito das jovens meninas praticantes e que usam o véu de frequentar a escola pública; os direitos dos muçulmanos de existir enquanto sujeitos políticos e de se manifestar, inclusive pela causa Palestina; o “direito deles ao trabalho e seus direitos trabalhistas”; os controles de identidade praticados por policias por causa da cor da pele ou do formato do rosto e o papel da polícia.

Por que combater a islamofobia? Porque esse engajamento oferece uma análise racional para uma juventude que não entende porque é odiada e que acaba por raciocinar em termos de “choque das civilizações”. Essa luta não coloca o povo francês contra os muçulmanos, mas forças políticas progressistas contra forças políticas reacionárias.

Mais numerosos serão os antiracistas a se juntarem a essas mobilizações, mais ficará claro que não estamos engajados em um conflito identitário, religioso ou cultural, mas político. Produzimos esperança em face de todos os fabricantes de desespero. Advertimos, com a União Judaica francesa pela paz, contra a essencialização dos judeus e insistimos no caráter político, colonial e não confessional do conflito israelense-palestino.

Nós não defendemos os muçulmanos, mas o futuro da sociedade francesa na diversidade. Representamos uma esperança que nossos detratores correm o risco de destruir. O essencial é garantir a igualdade entre todos. “A igualdade ou nada” proclamava o intelectual norteamericano-palestino Edward Saïd.

 

Essa tribuna é obra de um coletivo: Saïd Bouamama, porta-voz do Front uni des immigrations et des quartiers populaires (Frente unida das imigrações e dos bairros populares); Houria Bouteldja, membro do Partido dos Indígenas da República; Ismahane Chouder, copresidente do coletivo feminista pela igualdade; Alain Gresh, jornalista; Michèle Sibony, porta-voz da União Judaica francesa pela paz, Denis Sieffert, diretor do Politis.

 

Traduzido por Ana Catarina Zema de Resende.

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